Visão cristã

Meditações

  
 
 

Tua Palavra, meu pão

Da Carta sobre a Vida contemplativa, de Guigues de Chartres (1083-1136), Prior da Grande Cartuxa:

 

«Senhor, Tu a quem só os corações puros podem ver (Mt 5, 8), eu procuro, na leitura e na meditação, encontrar a verdadeira pureza do coração e a forma de a obter para poder, graças a ela, conhecer-Te, por pouco que seja. Procurei o Teu rosto, Senhor, procurei o Teu rosto (Sl 26,8). Meditei muito dentro do meu coração, e um fogo se iluminou na minha meditação: o desejo de Te conhecer melhor. Quando Tu partes para mim o pão da Sagrada Escritura, eu reconheço-Te nessa fração de pão (Lc 24,30-35). E quanto melhor Te conheço, mais desejo conhecer-Te, não só no sentido do texto, mas no sabor da experiência.

 

Não o peço, Senhor, pelos meus méritos, mas por causa da Tua misericórdia. Devo confessar que sou, realmente, pecador e indigno, mas «mas até os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas dos filhos». Dá-me portanto, Senhor, em fiança pela herança futura, ao menos uma gota da chuva celeste para refrescar a minha sede, pois estou sequioso de amor».

 

É através deste tipo de discursos que a alma chama pelo seu Esposo. E o Senhor, que olha pelos justos e que não ouve apenas as suas preces, mas está presente nessa oração, não espera pelo final. Ele interrompe o discurso a meio; aparece de repente, vem rapidamente ao encontro da alma que O deseja, fluindo no doce orvalho do céu como o perfume mais precioso. Ele recria a alma fatigada, alimenta a que tem fome, fortifica a sua fragilidade, reaviva-a mortificando-a através de um admirável esquecimento de si própria, torna-a sóbria ao enebriá-la.

 




Escrito por Pe. Henrique às 14h44
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O amor, forte como a morte

Das Homilias de Balduíno de Ford (séc. XII), abade cisterciense:

 

«Grava-me como selo em teu coração, porque forte como a morte é o amor» (Ct 8,6). «Forte como a morte é o amor» porque o amor de Cristo é a morte da morte. Da mesma forma, o amor com que amamos a Cristo é, também ele, forte como a morte, porque constitui, à sua maneira, uma morte: uma morte que põe fim à vida velha, em que os vícios são abolidos e as obras mortas são abandonadas. De fato, o amor que temos a Cristo – mesmo estando longe de igualar aquele que Cristo tem por nós – é à imagem e semelhança do Seu. Cristo, efetivamente, «amou-nos primeiro» (1Jo 4,19) e, através do exemplo que nos deu, tornou-Se para nós um selo, a fim de que nos tornemos conformes à Sua imagem.

 

É por isso que Ele nos diz: «Grava-Me como selo em teu coração», como se dissesse: «Ama-me como Eu te amo. Guarda-Me no teu espírito, na tua memória, no teu desejo, nos teus suspiros, nos teus gemidos, nos teus soluços. Lembra-te, homem, de que natureza te criei: de quanto te preferi às outras criaturas, de que dignidade de enobreci, de que glória e de que honra te coroei e como te fiz pouco inferior aos anjos e como tudo coloquei sob os teus pés (Sl 8,6-7). Lembra-te, não apenas de tudo o que fiz por ti, mas ainda de tudo aquilo que, de fato, suportei da tua parte, em sofrimento e desprezo. E vê se não és injusto para comigo, não Me amando. Quem, pois, te amou como Eu? Quem te criou, se não Eu? Quem te resgatou, se não Eu?»

 

Senhor, arranca de mim este coração de pedra, este coração gelado, este coração incircunciso. E dá-me um coração novo, um coração de carne, um coração puro (Ez 36,26). Tu, que purificas o coração e que amas o coração puro, vem possuir e habitar o meu coração; envolve-o e enche-o, Tu que ultrapassas tudo o que sou e que me és mais interior e íntimo do que eu mesmo. Tu, o modelo da beleza e o selo da santidade, confirma o meu coração à tua imagem, marca o meu coração com a tua misericórdia, Deus do meu coração, meu refúgio e minha herança para sempre (Sl 72,26).

 




Escrito por Pe. Henrique às 18h45
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A oração: de coração a Coração

Dos pensamentos de São Pio de Pietrelcina (1887-1968),sacerdote capuchinho:

 

A oração é um coração a coração com Deus. A oração bem feita toca o coração de Deus, incitando-O a ouvir-nos. Quando rezamos, que todo o nosso ser se volte para Deus: os nossos pensamentos, o nosso coração. O Senhor deixar-Se-á vencer e virá em nosso auxílio.

 

Reza e espera. Não te agites; a agitação é inútil. Deus é misericórdia e há de escutar a tua oração. A oração é a nossa melhor arma: é a chave que abre o coração de Deus. Deves dirigir-te a Jesus, menos com os lábios do que com o coração.

 




Escrito por Pe. Henrique às 15h53
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Sede de ti, saudade de ti!

Dos escritos de Santa Teresa d'Ávila (1515-1582), monja carmelita e doutora da Igreja:

 

Ó Deus verdadeiro e Senhor meu! Para a alma afligida pela solidão em que vive na Tua ausência, é grande consolo saber que estás em toda a parte. Mas que sentido há nisto, Senhor, quando a força do amor e a impetuosidade desta pena aumentam, e o coração se atormenta, a tal ponto, que nem podemos já compreender nem conhecer tal verdade? A alma percebe apenas que está apartada de Ti, e nenhum remédio admite. Porque o coração que muito ama não consente outros conselhos nem consolos, senão os vindos d'Aquele que o feriu; d'Ele, somente, espera a cura para a pena.

 

Quando Tu queres, Senhor, depressa saras a ferida que fizeste. Ó meu Bem-Amado, com quanta compaixão, com quanta doçura, bondade e ternura, com quantas mostras de amor Tu saras estas chagas feitas com as setas do Teu amor! Ó meu Deus, Tu és o repouso para todas as penas.

 

Não será loucura vã procurar meios humanos para curar os que vivem enfermos do divino fogo? Quem poderá saber aonde tal ferida chegará, donde vem, e como mitigar tão penoso tormento? Quanta razão tem a esposa do Cântico dos Cânticos, ao dizer: «O meu amado é para mim e eu para ele!» (Ct 2,16) Porque o amor que sinto não pode ter origem em algo tão baixo como é este meu amor. E, no entanto, Esposo meu, sendo ele assim tão baixo, como entender que seja afinal capaz de superar todas as coisas criadas, para chegar a seu Criador?

 

 



Escrito por Pe. Henrique às 11h01
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Sustenta-me, Senhor, e viverei!

Dos Escritos de São Jerónimo (347-420), presbítero e doutor da Igreja:

 

«Aproximando-Se, Jesus tomou-a pela mão e levantou-a». Com efeito, esta doente não conseguia levantar-se sozinha; estando acamada, não conseguia ir ao encontro de Jesus. Mas este médico misericordioso aproximou-Se da cama dela. Aquele que havia trazido uma ovelha doente aos ombros (Lc 15 5) aproxima-Se agora desta cama. Ele aproxima-se sempre mais, para curar ainda mais. Reparem bem no que está escrito aqui: «Tu devias certamente ter vindo ao Meu encontro, ter vindo acolher-Me à porta da tua casa; mas então a tua cura não resultaria tanto da Minha misericórdia, mas da tua vontade. Uma vez que uma febre tão forte te oprime e te impede de te levantares, Eu próprio venho ter contigo.»

 

«E levantou-a». Como ela não se conseguia erguer sozinha, é o Senhor que a levanta. «Ele tomou-a pela mão e levantou-a». Quando Pedro se encontrava em perigo no mar, no momento em que ia afogar-se, também ele foi tomado pela mão e se levantou. Que bela marca de amizade e de afeição por esta doente! Ele levanta-a tomando-a pela mão; a Sua mão curou a mão da doente. Ele pegou nesta mão como o teria feito um médico, que toma o pulso e avalia o grau de febre, Ele que é simultaneamente médico e remédio. Jesus toca-lhe e a febre desaparece.

 

Desejemos que Ele toque na nossa mão para que, assim, os nossos atos sejam purificados. Que Ele entre em nossa casa: levantemo-nos da nossa cama, não fiquemos deitados. Jesus encontra-Se à nossa cabeceira e nós permanecemos deitados? Vamos lá, levantemo-nos! «No meio de vós encontra-se Alguém que não conheceis» (Jo 1,26); «o Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17,21). Tenhamos fé e veremos Jesus presente no meio de nós.

 




Escrito por Pe. Henrique às 12h51
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O Autor da salvação

Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, Bispo e doutor da Igreja:

 

Aquele que escutou atentamente o evangelho de hoje, aprenderá por que motivo o Senhor do céu e restaurador do universo penetrou na habitação terrestre dos seus servos. Mas não há por que admirar-se de que ele, tendo vindo misericordiosamente socorrer, se tenha aproximado de todos com bondade.

 

Considerai o que atraiu Cristo à casa de Pedro: não foi certamente o desejo de repousar, mas a enfermidade da doente; não a necessidade de alimentar-se, mas exercer o seu poder divino. Na casa de Pedro não se derramavam vinhos, mas lágrimas. Por isso Cristo ali entrou, não para banquetear-se, mas para restituir a vida. Deus procura homens, e não o que é humano; deseja dar os bens do céu, e não alcançar os da terra. Pois Cristo veio para nos restaurar, não para pedir o que é nosso.

 

Entrando na casa de Pedro, Jesus viu a sogra dele acamada, com febre (Mt 8,14). Cristo, tendo entrado na casa de Pedro, percebeu logo para que viera. Não olhou o aspecto da casa, nem a multidão que acorria, nem as honras com que o saudavam, nem a reunião da família; não prestou atenção ao aparato dos preparativos, mas aos gemidos da enferma e ao ardor da febre. Percebeu o perigo da que já estava desenganada, e imediatamente estendeu a mão para a ação divina. Cristo ainda não tivera tempo de debruçar-se sobre a humanidade da mulher, quando a enferma se levantou para ir ao encontro da divindade. Tocou-lhe a mão, e a febre a deixou (Mt 8,15). Vede como a febre abandona aquela a quem Cristo segura! Onde estiver presente o autor da salvação não permanece a enfermidade; não haverá acesso para a morte onde houver entrado aquele que dá a vida.

 

Ao anoitecer, levaram a Jesus muitos possessos. Ele expulsou os espíritos pela palavra (Mt 8,16). Ao anoitecer, isto é, quando se conclui a jornada terrestre, quando o mundo se afasta da luz do tempo. Chega à noite aquele que restitui a luz, para dar-nos o dia sem ocaso, aos gentios, que caminhamos na noite deste mundo.

 

Ao anoitecer, isto é, nos últimos tempos, nós gentios, somos oferecidos a Deus pelo sacrifício filial e solene dos apóstolos, sendo afugentados os demônios que tinham poder sobre nós, por causa do culto dos ídolos. Pois, enquanto ignorávamos o Deus único, servíamos a inúmeros deuses em sacrílega e hedionda escravidão.

 

Cristo não veio a nós pela carne, mas pela palavra. Quando a fé veio pela pregação e a pregação, pela palavra (cf. Rm 10,17), ele nos libertou da escravidão dos demônios, reduzindo a prisioneiros aqueles ímpios tiranos. Desse momento em diante os demônios, que nos dominavam, caíram em nossas mãos, submetidos ao nosso controle. Que a nossa infidelidade, irmãos, não nos faça agora voltar a ser seus escravos; mas recomendando-nos, como também as nossas ações, ao Senhor, entreguemo-nos ao Pai e creiamos em Deus. Porque a vida do homem está nas mãos de Deus, que guia como Pai as ações de seus filhos, e não deixa, como Senhor, de cuidar de sua família.

 



Escrito por Pe. Henrique às 23h15
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Jesus: o sentido, o consolo, a vida

O grande dom que Cristo nos faz não são milagres nem curas nem solução de problemas. Deixemos essa visão miserável, mesquinha e pagã para os pagãos e os que enganam e ganham dinheiro e poder em nome de Cristo. Nosso modo de ver é outro, é aquele mesmo que o Cristo nos ensinou e do qual ele mesmo nos deu o exemplo pela sua vida e pela sua morte!

 

O Santo Padre Bento XVI, quando ainda era Cardeal Ratzinger, assim escreveu: “Uma visão do mundo que não pode dar um sentido também à dor e não consegue torná-la preciosa, não serve para nada. Tal visão fracassa exatamente ali, onde deveria aparecer a questão mais decisiva da existência. Aqueles que sobre a dor não têm nada mais a dizer a não ser que se deve combatê-la, enganam-se. Certamente, é necessário fazer tudo para aliviar a dor de tantos inocentes e limitar o sofrimento. Mas, uma vida humana sem dor não existe e quem não é capaz de aceitar a dor, foge daquelas purificações que são as únicas a nos tornar maduros. Na comunhão com Cristo, a dor torna-se plena de significado, não somente para mim mesmo, como processo de purificação, no qual Deus tira de mim as escórias que obscurecem a sua imagem, mas também, para além de mim mesmo, é útil para o todo, de modo que, todos nós podemos dizer como São Paulo: ‘Agora eu me alegro nos sofrimentos que suporto por vós, e completo na minha carne o que falta dos padecimentos do Cristo pelo seu corpo que é a Igreja’ (Cl 1,24)... A vida vai além da nossa existência biológica. Onde não há mais motivo pelo qual vale a pena morrer, também não há motivo que faça valer a pena viver.”

 

Não se esqueça, ao perca o foco: para isso Jesus veio – “foi para isso que eu vim!”, diz o Senhor hoje. Veio para anunciar o Reino e expulsar tudo aquilo que demoniza a nossa existência. E nada nos inferniza mais que viver sem sentido!

 

Não vivamos como os pagãos, que vão sendo levados pela existência, fugindo da realidade e refugiando-se nas ilusões. Quanto excesso de divertimento, de eventos esportivos, de programas turísticos, de sonhos de consumo, de lazer e diversão... Se tudo isso numa justa medida é saudável, com o excesso que hoje se vê, é prejudicial, é sinal de uma humanidade doente, que tem medo de enfrentar as verdadeiras e profundas questões da existência! É que sem uma relação vive e íntima com o Senhor, é impossível enfrentar a nossa dura realidade! É neste sentido que o cristianismo nos apresenta um Evangelho, uma Boa Notícia: porque nos dá o Sentido, que aparece em Cristo Jesus!

 

Abramo-nos para o Senhor; nele apostemos nossa existência e tornemo-nos para os outros sinais de esperança e de vida, como São Paulo que se sentia devedor do Evangelho a todos. Que seja o Senhor Jesus consolo de nosso pranto, força no nosso caminho, alívio de nossas dores e prêmio de vida eterna.

 




Escrito por Pe. Henrique às 20h18
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Nele a nossa vida!

Porque somos apenas pó que o vento leva, porque nossa vida passa depressa como a lançadeira do tear, veio Jesus, nosso Senhor! É isto que o Evangelho nos mostra hoje. Cristo nosso Deus, tomando pela mão a sogra de Pedro e erguendo-a do seu leito, revela que vem nos tomar pela mão – a nós, feridos e doentes de tantas doenças, fraquezas e medos!

 

Este é o Evangelho, a Boa notícia: em Jesus, Deus revela o sentido de nossa existência porque se revela como Deus próximo, Deus de compaixão, Deus capaz de dar um sentido às nossas dores e até à nossa morte. Cristo nos toma pela mão, Cristo toma sobre si as nossas dores. Não precisamos fingir que não envelheceremos, que não adoeceremos, que não morreremos...

 

Sabemos que nem a vida nem a morte nos podem afastar do amor de Cristo; sabemos que nele, tudo se enche de novo sentido... Por isso todos o procuram, porque procuram um sentido para a existência!




Escrito por Pe. Henrique às 20h14
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Pequeno, fugaz, na presença do Eterno

Note, caro Leitor, peregrino como eu nesta vida passageira: num mundo como o nosso, que cultua o corpo, o físico sarado, a saúde e o vigor físicos e presta tão pouca atenção ao sofrimento, à dor, ao fracasso, num mundo que tem medo de pensar na morte e de assumir que todos morreremos, num mundo que não sabe o que fazer com o sofrimento, com a doença, com a decadência física, com a deformidade do corpo, estas palavras de Jó, convidam-nos a colocar os pés no chão. Repito: não são palavras pessimistas, porque aquele que chora e busca o sentido da existência, fá-lo diante de Deus.

 

Observe como terminam as palavras da leitura – são comoventes: “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”. São uma oração! O triste na vida não é sofrer, não é chorar, não é morrer... Triste e miserável é sofrer e chorar e morrer sem Deus, sem este Parceiro cheio de doce ternura que dá sentido à nossa existência!

 



Escrito por Pe. Henrique às 20h04
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A fugacidade da vida à luz de Deus

Na liturgia deste Domingo, o livro de Jó, de modo dramático, mostra a vida humana: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como dias de um mercenário? Tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimentos. Se me deito, penso: quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde... Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança. Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”.

 

Eis! Não são palavras negativas, desesperadas, essas de Jó. São, antes, uma reflexão realista sobre o mistério da vida humana, uma reflexão cheia de esperança, porque feita à luz de Deus. Uma coisa é pensar nas realidades negativas de nossa existência simplesmente contando com nossas forças. Que desespero, que desilusão, que vazio de sentido! Outra, bem diferente, é encarar a vida também com suas trevas, à luz de Deus, o Amor eterno e onipotente! Que esperança que não decepciona, que paz que invade o coração, mesmo na dor!



Escrito por Pe. Henrique às 19h56
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As chagas do Salvador

Das homilias de São Bernardo de Claraval (1091-1153), abade cisterciense e doutor da Igreja:

 

 

Onde poderá a nossa fragilidade encontrar repouso e segurança, a não ser nas chagas do Salvador? Trespassaram-Lhe as mãos e os pés, e o lado com um golpe de lança. Destas três chagas abertas jorrou o mel dos rochedos que me sacia (Sl 80,17) e o óleo que corre sobre a dura pedra e me permite «saborear e ver como é bom o Senhor» (Sl 33,9).

 

Ele tinha desígnios de paz (Jr 29,11) e eu não sabia. «Pois quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi o Seu conselheiro?» (Rom, 11,34). Mas a lança que Nele penetrou veio a ser para mim a chave que abriu o mistério dos Seus desígnios.

 

Como posso deixar de ver por estas aberturas? Os pregos e as chagas clamam que, na pessoa de Cristo, Deus Se reconcilia verdadeiramente com o mundo. O ferro trespassou-Lhe a carne e tocou-Lhe o coração, a fim de que Ele Se compadecesse das minhas fraquezas. O segredo do Seu coração aparece a nu nas chagas do Seu corpo; vemos a descoberto o grande mistério da Sua bondade, dessa misericordiosa ternura do nosso Deus, dessa luz que veio visitar-nos do alto (Lc 1,78).

 

E como pode semelhante ternura não se manifestar nas Suas chagas? Como haverias de mostrar com mais clareza do que através das chagas que Tu, Senhor, és doce e compassivo e de grande misericórdia, uma vez que não há maior amor do que dar a vida (Jo 15,13) por condenados à morte?

 

O meu mérito reside, pois, todo ele, na piedade do Senhor, e não me faltará o mérito enquanto Lhe não faltar a piedade. Se as misericórdias do Senhor se multiplicarem, numerosos serão os meus méritos. E que me acontecerá, se tiver de me acusar de múltiplas faltas? «Onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5,20). E, se «a graça do Senhor dura para sempre» (Sl 102,17), por mim, «hei de cantar para sempre o amor do Senhor» (Sl 88,2). É essa a minha justiça? Senhor, só da Tua justiça me recordarei; é ela a minha justiça, pois Tu Te tornaste para mim justiça de Deus (Rm 1,17).

 

 

 



Escrito por Pe. Henrique às 15h29
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O Precursor

Das Homilias de São Beda, o Venerável (673-735), monge e doutor da Igreja:

 

Não há qualquer dúvida de que São João Batista sofreu a prisão pelo nosso Redentor, que precedeu pelo seu testemunho, de que foi por Ele que deu a vida. O seu perseguidor não lhe pediu para negar Cristo, mas para calar a verdade, Contudo, foi por Cristo que morreu. Com efeito, Cristo disse acerca d'Ele mesmo: «Eu sou a verdade» (Jo 14,6). Se pela verdade derramou o seu sangue, então foi por Cristo. Nascendo, João testemunhou que Cristo iria nascer; pregando, testemunhou que Cristo iria pregar; batizando, que Ele iria batizar. Sofrendo primeiro a sua Paixão, significou que o próprio Cristo a sofreria.

 

Este homem tão grande chegou, então, ao fim da sua vida pelo derramamento do seu sangue, depois de um longo e penoso cativeiro. Ele, que anunciou a boa nova da liberdade de uma paz superior, foi lançado na prisão pelos ímpios. Foi fechado na obscuridade de um cárcere, ele que veio para dar testemunho da luz. Pelo seu próprio sangue é batizado aquele a quem foi dado batizar o Redentor do mundo, ouvir a voz do Pai dirigindo-se a Cristo, e ver descer sobre Ele a graça do Espírito Santo.

 

O apóstolo Paulo efetivamente disse-o: «Porque a vós vos é dado por Cristo, não somente que creais n'Ele, mas ainda que por Ele padeçais» (Fl 1,29). E, se disse que sofrer por Cristo é um dom dos Seus eleitos, é porque, como diz noutra parte: «Tenho como coisa certa que os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há de revelar-se em nós» (Rm 8,18).

 




Escrito por Pe. Henrique às 16h34
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Cristo, único caminho da humanidade

Da Encíclica “E supremi apostolatus”, de São Pio X, papa de 1903 a 1914:

 

«Ninguém pode por outro fundamento diferente do que foi posto, isto é, Jesus Cristo» (1Cor 3,11), Ele «a Quem o Pai santificou e enviou ao mundo» (Jo 10,36), «esplendor da Sua glória e imagem da Sua substância» (Hb 1,3), verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem Quem ninguém pode conhecer perfeitamente a Deus, porque «ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar» (Mt 11,27).

 

Donde se segue que «reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas» (Ef 1,10) e fazer regressar os homens à obediência a Deus são uma e a mesma coisa. É por isso que o objetivo para o qual devem convergir todos os nossos esforços consiste em fazer regressar o gênero humano à soberania de Cristo. Desse modo, o homem será, por isso mesmo, reconduzido a Deus: não a um Deus inerte e despreocupado das realidades humanas, como imaginaram certos filósofos, mas a um Deus vivo e verdadeiro, em três Pessoas, na unidade da Sua natureza, Criador do mundo, que estende a todas as coisas a Sua providência infinita, justo doador da lei, que julgará a injustiça e garantirá à virtude a sua recompensa.

 

Ora, onde se encontra a via que nos dá acesso a Jesus Cristo? Está diante dos nossos olhos: é a Igreja. Com razão nos diz São João Crisóstomo: «A Igreja é a tua esperança, a Igreja é a tua salvação, a Igreja é o teu refúgio.» Foi para isso que Cristo a estabeleceu, depois de a ter adquirido pelo preço do Seu sangue. Foi para isso que lhe confiou a Sua doutrina e os preceitos da Sua Lei, prodigalizando-lhe ao mesmo tempo os tesouros da Sua graça, para a santificação e a salvação dos homens.

 

Vede, pois, veneráveis irmãos, a obra que nos foi confiada nada mais pretender do que a todos formar em Jesus Cristo. Trata-se da mesma missão que Paulo atestava ter recebido: «Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós» (Gl 4,19). Ora, como havemos de cumprir semelhante dever, se não estivermos primeiramente «revestidos de Cristo» (Gl 3,27)? E revestidos a ponto de podermos dizer: «Para mim, o viver é Cristo» (Fl 1,21).

 



Escrito por Pe. Henrique às 21h45
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A vida escondida de Cristo

Das Meditações de São Boaventura (1221-1274), Bispo e doutor da Igreja:

 

O Senhor Jesus, regressando do Templo e de Jerusalém a Nazaré com seus pais, morou com eles até à idade de trinta anos «e era-lhes submisso» (Lc 2,51). Não se encontra nas Escrituras o que é que Ele fez durante todo este tempo, o que parece bastante surpreendente. Mas, se olharmos com atenção, veremos claramente que, não fazendo nada, fazia maravilhas. Cada um dos Seus gestos revela, com efeito, o Seu mistério. E, como agia com poder, também Se calou com poder, permanecendo recolhido na obscuridade com poder. O Mestre soberano, que nos vai ensinar os caminhos da vida, começa desde a Sua juventude a fazer obras de poder, mas de uma forma surpreendente, incógnita e inconcebível, parecendo aos olhos dos homens inútil, ignorante, e vivendo no opróbrio.

 

Ele apreciava cada vez mais esta maneira de viver, a fim de ser julgado por todos como um ser pequeno e insignificante; isto fora anunciado pelo profeta, que dissera em seu nome: «Eu sou um verme e não um homem» (Sl 21,7). Vês portanto o que Ele fazia, não fazendo nada. Tornava-se desprezível; acreditas que isso era pouca coisa? Seguramente, não era Ele que tinha necessidade disso, mas nós. Não conheço nada mais difícil nem mais grandioso. Parece-me que chegaram ao mais alto grau aqueles que, de todo o seu coração e sem fingimento, se possuem suficientemente para não procurarem nada de outrem senão ser desprezados, não contar para nada e viver num abaixamento extremo. É uma vitória maior que a tomada de uma cidade.

 



Escrito por Pe. Henrique às 15h44
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O Vencedor da nossa morte

Das homilias de São João Crisóstomo (345-407), Bispo e doutor da Igreja:

 

«Ao chegar à casa do chefe da sinagoga, encontrou grande alvoroço e gente a chorar e a gritar. Entrando, disse-lhes: «Por que todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu, está dormindo». Mas zombavam Dele. Assim nos ensina Jesus a não temer a morte, porque não é uma verdadeira morte: de agora em diante, não é mais do que um sono. E, como Ele próprio ia morrer, prepara os seus discípulos, ressuscitando outras pessoas, para que tenham confiança Nele e não se assustem quando Ele morrer. Porque, desde a vinda de Cristo, a morte tornou-se apenas um sono.

 

No entanto, zombavam Dele; mas Ele não se indignou com esta falta de confiança no milagre que ia operar; não lhes censurou os sorrisos, para que esses mesmos sorrisos, tal como as flautas e os restantes preparativos, tornassem bem óbvia a morte da menina. Vendo, pois, os músicos e a multidão, Jesus fê-los sair a todos; e fez o milagre na presença dos pais, como se a acordasse do sono.

 

É evidente que, agora, a morte já não é mais que um sono; hoje, esta é uma verdade mais brilhante do que o sol. «Mas explica-me por que não ressuscitou Jesus o meu filho!» Pois não, mas ressuscitá-lo-á, e em muito maior glória. Porque esta menina, que fez regressar à vida, morreu de novo, enquanto que o teu filho, quando Ele o ressuscitar, permanecerá imortal. Portanto, que mais ninguém chore, nem se lamente, nem critique a obra de Cristo. Porque Ele venceu a morte. Por que derramas lágrimas inúteis? A morte tornou-se num sono: por que gemer e chorar?

 

 



Escrito por Pe. Henrique às 01h11
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